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Lutas, partos e a obstetrícia da USP

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Por Angela Davies

Há pelo menos 2 anos me convenci que a grande maioria das mulheres no Brasil tem medo de parir. Entendam, não é medo de ver a criança nascer, mas medo dela passando pela vagina, medo das contrações, do círculo de fogo. Em resumo, medo do desconhecido, no qual somos atiradas com informações dúbias, sem base em evidências muitas vezes. Lá estamos jogadas no escuro, esperando a mão do médico onipotente guiar para o que deveria ser o mais seguro para mulher e aquele que virá a nascer. Infelizmente, isso não é o que acontece na imensa maioria das vezes. Até porque o índice de nascimentos por cesáreas no país indicado pela OMS é de 15% ,e no Brasil o número de cesáreas na rede privada de saúde varia entre 70% a 90% dos nascimentos.

É levando isso em conta que penso nas mobilizações na EACH (USP Leste). Pois é o curso de Obstetrícia o mais mobilizado daquele campus. Apesar de compreender a situação precária da universidade e a própria lógica de elitização que vem atingindo as universidades públicas brasileiras, fiquei tentada em compreender a relação do processo de fechamento do curso com a escuridão normalmente povoada por milhares de grávidas ano após ano. Sim, a tentativa de findar o curso de obstetrícia também reforça a lógica de violência no parto. Pois, mesmo que a grade curricular do curso não corresponda ao que seria o atendimento integral à saúde da mulher, pelo fato de compreender apenas o período reprodutivo e o parto, não podemos esquecer que dentro do paradigma de currículos pensando saúde no Brasil, a Obstetrícia demarca muito bem uma ruptura com a centralidade e essencialidade da figura do médico durante o atendimento pré, pós e durante parto, pensando no protagonismo e empoderamento da mulher.

Conseguir quebrar os tabus existentes sobre a gravidez e o parto é um grande mérito, mérito de todos os profissionais ligados a luta do parto humanizado, pois isso ajuda a disseminar informações e empoderar as mulheres, até porque poucas de nós têm acesso às obras do Michel Odent ou Leboyer antes de ficarmos grávidas e partirmos para o périplo de se conseguir um parto humanizado no Brasil.

O obstetra e pesquisador Michel Odent provou que os hormônios presentes durante o nascimento são os mesmos liberados na hora do orgasmo. Assim como para fazer amor, parir exige um ambiente em que a mulher se sinta segura, não vigiada, seduzida por sons, cheiros e liberdade para adotar a posição que mais lhe satisfizer. (Kalu, Blog Mamíferas)

Sempre falo que no Brasil a mulher não pode decidir se, quando e como quer ser mãe e o tratamento recebido por nós, seja durante o trabalho de parto, seja em um processo de abortamento complicado, é o mesmo: na hora de fazer não chorou. Talvez, na minha ingenuidade, acredite que defender o curso de Obstetrícia – para além da muito coerente pauta de ser contra a elitização da USP – é ajudar a confrontar o tratamento obstétrico frio, impessoal e violento que hoje a maioria das mulheres se depara. Inclui uma outra lógica de atendimento, o da possibilidade de deixar a mulher se movimentar, o de garantir a presença de acompanhante durante o trabalho de parto – que é lei, mas sistematicamente desrespeitada -, fazer a mulher reconhecer seu próprio corpo e o corpo daquela que nasce, assistir a mulher e atendê-la em seus desejos e não destratá-la… Sim, vejo hoje o curso de Obstetrícia da USP como uma quebra de paradigma da assistência ao parto, do acolhimento da mulher e uma barricada contra o fordismo que se instalou na prática obstétrica brasileira.

É isso, pra esta mãe a luta é como um parto, um posicionamento político essencial, doloroso, mas no fim quando olhamos para trás e fazemos o balanço de tudo, nos damos conta de que valeu a pena.

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