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Quando não falam comigo

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Que a língua portuguesa é machista não é grande novidade. Só pra ilustrar, não lembro onde li  ou vi, um bom exemplo:  numa situação em que três mulheres atravessam a rua, basta um cachorro pra virar “eles atravessaram a rua”.

Temos o hábito de sempre falarmos o plural no masculino – “vou viajar com os meus amigos” – ou quando uma mulher está grávida ou fala sobre a possibilidade de engravidar repete “meu filho”, antes mesmo de ter como saber se será menino ou menina. Quando escrevemos um e-mail para muitas pessoas começamos com “caros”, ou “queridos”, ou “meninos”… e sempre que recebo um desses tenho a sensação que a pessoa não está falando comigo.

Pode parecer bobagem, mas é uma situação incômoda pra mim, realmente não me sinto contemplada, sabe? (não vou nem comentar o tamanho do meu incômodo quando falam em “Homem” como sinônimo de humanidade, ser humano)

E acredito que uma coisa aparentemente pequena pode não ser tão pequena, na verdade. Em situações assim que, mesmo sem perceber, mais reproduzimos machismos. Assim como em piadas – que reproduzimos racismo e homofobia também -, como as clássicas “mulher não sabe dirigir”, “ela é loira, por isso não entendeu”, ou quando amigos homens trocam ofensas-carinhosas como “veado” e “bichinha”. Isso sem falar do famoso “tá me estranhando” como reação a qualquer brincadeira vinda de outro homem, ou elogio, ou mesmo brincadeira. Mas nesses casos acho que a coisa não é tão inconsciente assim…

O uso de termos e piadas assim, muitas vezes, acabam por naturalizar alguns preconceitos sem nos darmos conta. Claro que não é porque um cara brincou com um amigo chamando-o de “veado” que ele é homofóbico necessariamente. Mas, ao reproduzir essa associação de homossexualidade a uma caracaterística negativa, ele ajuda a naturalizar essa ideia.

Um caso que me fez pensar muito nisso, foi quando trabalhava num lugar que tinha muito mais mulheres do que homens (tipo 10 mulheres e 2 homens, mais ou menos) e uma delas mandou um e-mail pra todxs que começava com “meninos”. Respondi perguntando porque ela tinha começado a mensagem daquela maneira. A resposta dela, naturalmente foi “tem meninos aqui, ué”.

Quando questionei o “meninos” foi pensando que tinha sido uma desatenção, achei que era mesmo um erro gramatical, não foi provocação nem nada – hoje talvez eu fizesse a mesma pergunta para provocar. Mas a nossa gramática é machista né. E desse ponto de vista ela realmente não estava errada. Só que continuei desconfortável, pra mim continuava sendo errado.

Por causa de situações assim (que são incrivelmente frequentes), hoje tento mudar isso o máximo possível nos meus textos, mensagens, e-mails e falas. Procuro outras formas, reformulo frases, recorro ao parentêses – (as). Claro que também dou minhas escorregadas, mas o exercício é ótimo e me faz enxergar e descobrir novas formas de machismo. E isso ajuda a dar visibilidade a mulheres.

Recomendo esse texto que tem muito a ver com esse pensamento e fala sobre a invisibilidade das mulheres negras.

É uma reeducação pra lembrarmos que falamos com homens e mulheres – e mulheres e homens negrxs, né. E que homens não se “sobrepõem” às mulheres em nenhuma situação – nem o contrário.

Natalia Mendes

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