No último sábado tive o privilégio de ver Fernanda Montenegro interpretando Simone de Beauvoir. Um privilégio mesmo, não só pro ter gostado muito. Mas porque o preço absurdo dos ingressos exclui a possibilidade da maior parte da população assistir uma peça dessas, e porque era quase impossÃvel conseguir comprar – mesmo tendo dinheiro – afinal, tanta gente querendo ver a “incrÃvel global” de perto faz com que os ingressos acabem rapidamente (é fácil deduzir que boa parte da plateia vai lá simplesmente para ver a importante atriz da globo de perto). Mas a peça vale a pena. E muito.
Apenas Fernanda e uma cadeira. Durante uma hora, só as duas no palco, com uma iluminação que fazia você acreditar que estava alucinando na hora em que surgia Beauvoir, e quando ela partia.
Só a voz dela bastava. Sem gestos exagerados, sem recursos além do próprio corpo. Em alguns momentos nem precisei olhar pra ela. Fechava os olhos e é como se visse a própria Beauvoir falando as coisas mais lindas e geniais. Chorei. Chorei quando ouvi que “somos colonizadas por dentro”. É isso! Somos colonizadas por dentro. Senti uma enorme tristeza com essa descoberta. E, ao mesmo tempo, me senti forte e foi libertador. É libertador descobrir o que te prende.
Ela(s) também me lembrou de algo muito importante: é verdade que ninguém nasce mulher, torna-se mulher; mas também é verdade que ninguém nasce homem. “A virilidade é uma construção cultural”. Não podemos esquecer disso.
“Libertem a noiva”, gritava Beauvoir no inÃcio do século XX, época de um machismo ainda mais exacerbado, de conservadorismo, de guerra. Enquanto isso também fazia orgias pra se libertar de tantas amarras. Imagine que linda orgia a que contou com Albert Camus, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre?!
Fiquei arrepiada quando falava de liberdade, quando falava da sua amiga de infância Zaza que morreu simplesmente por buscar prazer e vida. Fiquei arrepiada quando narrou seu primeiro orgasmo completo. Fiquei arrepiada com a liberdade de suas falas, de suas ideias, de suas atitudes.
Respirei fundo e viajei para longe quando respondeu ao Sartre que não sabia o que era ser mulher, pois vivia como um homem – é, para ter a liberdade que tanto buscava, só vivendo como se fosse um homem. Foi aà que surgiu uma das obras mais importantes: O Segundo Sexo. Em busca de uma resposta, Beauvoir estudou muito e, talvez sem ter a intenção, registrou as principais razões do feminismo.
Chorei de novo quando Sartre morreu. Naquele momento que Fernanda/Beauvoir narrava a ida de seu maior amor, eu vi. Vi como se estivesse ali. E chorei sua morte. Senti sua partida e meu coração apertou junto com o dela.
Saà de lá admirada, arrepiada, triste e esperançosa. Embora já conhecesse uma parte considerável do texto e da história, foi tudo novo. Foi como uma grande revelação, sabe?
Saà de lá pensando que não posso atrapalhar a liberdade de viver de ninguém, que preciso ajudar a libertar noivas e acabar com as colonizações. Saà de lá com os olhos cheios de lágrimas, o coração aquecido e a cabeça a mil. Saà de lá querendo ser diferente, querendo fazer diferente.
Natalia Mendes
Veja também: “Biologia não é destino” – vÃdeos da Simone de Beauvoir

Gata, chorei. Chorei praticamente todas as vezes em que vc chorou no texto. Essa companheira de blog e de vida é um orgulho! Lindo texto…e eu quero ir ver a peça! Hehe beijoss
<3 <3 <3 isso é tudo.
Emocionante o relato, faz refletir…
Aiiii que relato lindo chorei E engraà ado tb, parecia atà meu marido falando hehe à muito legal ver essa experiência pela ótica dos homens.
Seu blog à como um livro de cabeceira pra mim, sempre tem aquela parte que a gente quer voltar e ler de novo, porque diz tudo o que precisamos ouvir naquele momento.
Esse futurismo à muito mais està tico, e como bem diz o Mario, pano de fundo para discutir questões muito atuais naquele momento e provavelmente não só ali .
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