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Arquivo da categoria: Machismo

Pinheirinho: desabafo

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Foto tirada na Assembléia realizada dentro da ocupação no sábado, 14 de janeiro. Este é o barracão central onde todas as assembléias eram feitas e assuntos de interesse geral eram apresentados e votados. Isso sim, uma aula de democracia!

Fecho os olhos agora e vejo o barracão central do Pinheirinho, aquele onde eu chorei na semana passada por ver a luta daquele povo, onde vi o Marrom chorar de orgulho daquele povo… onde eu vi aquelas crianças, conversei com aquelas mulheres, chorei com elas, bradei e lutei e vibrei com elas. Hoje eu choro de novo, de imaginar aquele barracao, símbolo de uma verdadeira democracia, no chão. Queimado, derrubado, destruído. Assim como nossa “democracia” hoje. Queimada, derrubada, destruída. Estou cansada, há 12 horas acordada bradando aos 7 ventos junto com milhares de pessoas que estão no twitter pedindo a intervenção de alguém que pudesse segurar a loucura da pm. Tenho em mim agora um pouco de medo ainda pelo que está por vir – porque ao contrário do que a mídia nojenta está noticiando, ainda não acabou…está só começando. Tenho também orgulho, de ver esse brasil inteiro unido por essas pessoas…não se conhecem mas estendem a mão porque se entendem irmãos. Tenho a vergonha, de ser jornalista e ter que engolir uma das maiores emissoras do país que diz ser exemplo em jornalismo, dar notícias nada apuradas e de “fontes oficiais”, como eram nos tempos ditatoriais. E sinto tb aflição pela falta de notícia de alguns companheiros que estavam lá dentro e sumiram há mais de 8 horas. Aflição por aquelas mulheres e crianças. Que eu traria pra minha casa sim, com prazer, como gostam de mencionar as más línguas. se eu pudesse e se isso solucionasse o problema da moradia e da corrupção nesse país. Dividiria com elas sim o meu pão pois foi metade do pão delas que recebi quando fui visitá-las. Essas pessoas nos sorriem com a alma. E hoje destruímos mais de 8 mil sorrisos. E criamos lágrimas, destruímos famílias, geramos caos. Aos que não entendem, ao menos respeitem. Acima de qualquer ideologia, este é um momento de muita dor pra muita gente.

Cylene Dworzak

Mulheres e futebol

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Outro dia fui ver o jogo do meu time do coração. Domingo, dia de futebol. Fazia muito tempo que não ia, senti muita falta. Mas voltei pra um dos programas que mais gosto cheia de pensamentos novos e buscando um novo olhar.

Nesse tempo que fiquei longe de estádio, me aproximei do feminismo, por pura coincidência. Entrei naquele lugar que tanto gosto pensando como gosto de lá. Como tem homem junto num lugar só. Como as únicas mulheres que “aparecem” são as líderes de torcida (aquelas de mini-saia, segurando pompoms e fazendo coreografias).

Quando comecei a ir com frequência assistir jogos no estádio, ia acompanhada apenas de uma amiga. Só duas meninas. E pra quem tem medo, garanto que não tem nada demais. Depois comecei a ir com um amigo. Um dos poucos que não se importava em “me levar”. Homens costumam achar que levar mulher no estádio significa que terão que cuidar dela. Mas não precisam.

Aliás, apesar de nunca ter acontecido absolutamente nada comigo dentro de um estádio, muitas vezes me sentia mais segura com amigas do que com amigos. E não é no mínimo curioso que num estádio eu nunca tenha passado por nenhuma situação desrespeitosa, mas em um ônibus  já?

O que eu gosto mesmo de futebol é ver jogo no estádio. Nesse tempo que fiquei sem ir, perdi muito interesse e paciência pra acompanhar. Só acompanhava o “básico” (sabe os gols que passam no jornal? só isso e olhe lá). Mas quando assisto ao vivo, ali pertinho, quando ouço a torcida gritando, vibrando… acho lindo! Fico sonhando ali dentro. É quando sinto prazer de acompanhar campeonatos.

Estar no meio daquela multidão é incrível. Sentir o chão tremer, literalmente. O coração bate mais forte. O grito sai sem você nem perceber. É muita gente, é um mar de gente. Um mar de gente que canta junto a mesma música. Bate palma, pula, grita, tudo junto.

Nunca tive paciência para conversas “ganhei o jogo x”, “mas eu ganhei o jogo y”, “fomos campeões ano passado”, “e nós no ano retrasado”… acho que não leva a lugar nenhum. Claro que uma provocação, uma brincadeira, se torna irresistível. É uma competição, afinal. Só isso. Não além disso. Mas enfim, não é o que importa.

Falar de futebol eu gosto quando me acrescenta alguma coisa. E muito se engana quem acha que o esporte não tem nada de importante. Tem relação com a história de cada país, cada cidade. Tem a ver com política, com cultura.

A maior participação feminina é nas “musas do brasileirão”, o que é uma pena. Fora que me incomoda demais essa história de musa pra lá, musa pra cá. Como se mulher só servisse para ser bonita. É muito triste me deparar com matérias absurdas como essa aqui, por exemplo. Ou matérias que desvalorizam jogadoras por não serem “bonitas”.

Mas o que queria mesmo dizer é que é claro que alguém, independente de ser homem ou mulher, pode não gostar de futebol. Mas é triste ver mulheres se privando de algumas coisas por acreditar que seja “coisa de homem”. Tenho amigas que amam futebol e nunca foram ver jogo no estádio porque nenhum homem quis ir com ela. Acho isso tão triste. Os homens precisam parar de achar que mulheres são tão frágeis que não podem nem ver um jogo com elas sem dar trabalho pra eles.

Aposto que faria muito bem para algumas mulheres abrir mão desse medo. E para alguns homens abrir mão desse receio de ir junto com uma amiga/namorada/parceira assistir uma partida. Aposto que seria ótimo nos livrarmos de esteriótipos que nos impedem de fazer, pensar, usar algo por acreditar ser coisa “de menina” ou “de menino”.

E acharia lindo ver mulheres ocupando cada vez mais espaços antes só masculinos.

Natalia Mendes

Aconteceu comigo

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Jamais imaginei, do alto da minha ignorância, que coisas desse tipo aconteciam com pessoas como eu. Classe média, branca, estudada, vinda de “boa família”. Quando, numa determinada manhã me vi na delegacia da mulher, abrindo uma ocorrência contra o namorado que havia tentado me estrangular, a ficha caiu.

Nos meses seguintes, me dei conta de que aquela nem tinha sido a primeira violência que eu, como mulher, havia sofrido; não foi a primeira naquele relacionamento e, muito menos na minha vida toda.

Sou filha de um pai abusivo. Não que não me ame, mas a única forma que ele conhecia para educar uma criança era batendo. Apanhei bastante, talvez tivesse apanhado também se fosse menino, mas a questão é que isso inseriu em mim uma figura masculina autoritária, conservadora e violenta.  Se eu fosse menino, ou uma mulher menos consciente hoje, talvez reproduzisse o modelo do meu pai. Cresci fragilizada, um pouco insegura e machista. Por criação, não por essência.

Aos 12 anos, ainda menina e cheia de bonecas nas prateleiras, fui assediada por um tio. Estava deitada no sofá assistindo TV depois da escola em uma tarde qualquer e ele chegou me alisando. Apesar de não entender direito o que estava acontecendo, eu sabia. Sabia que era errado e abusivo. Diante da minha impotência, corri, me escondi e chorei. A desculpa do “tio” era de que o meu short era muito curto e, portanto, eu havia provocado seus instintos.

Cresci com isso sem nunca falar com ninguém. Me sentindo injustiçada por ter nascido mulher; durante fases da adolescência, usando roupas largas e folgadas com medo de chamar uma atenção “inadequada”. E mesmo assim, chamava. E me sentia culpada.

Demorei muitos anos para começar a lutar. Por mim, pelas outras mulheres que conheço e por todas as mulheres no mundo. Demorei também pra entender que a violência contra a mulher é ampla. Muitos são os casos e muitos são os níveis. E todos eles, sem exceção, causam traumas, humilham, nos diminuem como pessoas.

O machismo que impera na sociedade, a noção de que, por nascermos mulheres somos mais frágeis, descartáveis, meros pedaços de carne. Sofremos violência constante quando somos expostas como bifes no açougue pela mídia; quando andamos na rua e somos assediadas; quando apanhamos de nossos maridos, companheiros, namorados, amigos; quando somos abusadas e/ou estupradas.

E muitas vezes não nos damos conta destas violências, principalmente as mais sutis. Também, em alguns casos, as mulheres sabem da violência a que são submetidas, mas o machismo social impõe que elas devem agüentar e serem fortes. Muitas delas acabam morrendo. Mesmo as que denunciam as vezes acabam morrendo. Os dados da ONU que compõem o texto da Natália Mendes e do Thiago Domenici são assustadores.

O dia 25 de novembro é um dia emblemático, de luta. Mas a luta continua em todos os outros 364 dias por ano que temos para lutar, para gritar o basta a violência.

Violência contra a mulher seja física, verbal ou psicológica não deve ser permitida, não deve ser cometida. Denuncie, conscientize, eduque.

Ana Montenegro


Este texto faz parte da Blogagem Coletiva proposta pelas Blogueiras Feministas.

Nem com uma flor

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As irmãs Pátria, Minerva e Maria Tereza Mirabal eram líderes do movimento de libertação política chamado Las Mariposas, na República Dominicana. No dia 25 de novembro de 1960, foram vítimas de uma emboscada enquanto iam visitar seus maridos na prisão. Levadas para o meio de uma plantação, foram apunhaladas e estranguladas, a mando do ditador Rafael Leonidas Trujillo.

Mas, ao contrário do que acreditava Trujillo, a resistência à ditadura não havia acabado. O crime contra as irmãs Mirabal causou grande comoção e levou ainda mais gente à luta das Mariposas. Em maio de 1961, Trujillo foi assassinado e a sua ditadura chegou ao fim.

Trinta e nove anos depois, em 17 de dezembro de 1999, a Assembleia Geral das Nações Unidas determinou 25 de novembro como o Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra a Mulher.

Cinco anos de Maria da Penha

“Acordei de repente com um forte estampido dentro do quarto. Abri os olhos, não vi ninguém. Tentei me mexer, mas não consegui. Imediatamente fechei os olhos e só um pensamento me ocorreu: ‘Meu Deus, o Marco me matou com um tiro’”, relembrou a bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à Lei nº 11.340, sancionada em 7 de agosto de 2006, há cinco anos em vigor.

Por aqui, a nossa progressista Lei Maria da Penha, responsabiliza família, Estado e sociedade pela garantia dos direitos da mulher, prevendo ainda a elaboração de políticas públicas para resguardá-los. Com ela, o Código Penal foi alterado e permite que agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada.

Outras medidas para proteger a mulher, como por exemplo, a saída do agressor de casa, a proteção dos filhos e o encaminhamento das vítimas e seus filhos para uma casa abrigo foram incorporadas.

A questão, no entanto, continua grave apesar de cada vez mais mulheres denunciarem seus agressores. A lei é um passo importante, mas ainda não funciona em todos os casos (a maior parte das mulheres assassinadas por companheiros ou ex-companheiros já havia registrado queixa contra o agressor). E inúmeros casos de violência e feminicídios acontecem todos os dias.

Segundo o Mapa da Violência 2010, do Instituto Sangari, “Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, deixando o país em 12º lugar no ranking mundial de homicídios de mulheres.”

O machismo quando chega ao ponto da covarde agressão em suas variadas formas é uma excrescência dessa cultura perpetuada em tempos conservadores e que deve ser combatida diariamente, principalmente na educação das novas gerações.

Quando nos deparamos com dados que dizem que a maioria das vítimas – 40 % dessas mulheres têm entre 18 e 30 anos – é morta por parentes, maridos, namorados, ex-companheiros ou homens que foram rejeitados por elas, revela-se a magnitude do problema.

Segundo a ONU, cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência; a forma mais comum de violência experimentada pelas mulheres em todo o mundo é a violência física praticada por um parceiro íntimo; uma em cada cinco mulheres se tornará uma vítima de estupro ou tentativa de estupro no decorrer da vida; 80% das pessoas que são traficadas anualmente em situações de prostituição, escravidão ou servidão, são mulheres.

Quem dera, por exemplo, todo meio de comunicação como grandes tevês, rádios e portais de internet massificassem informações sobre o tema numa ação conjunta. E apontasse que não são casos isolados, são frequentes e resultado da mentalidade machista que existe na maior parte da sociedade.

No mínimo, atrairia maior visibilidade ao problema, o que já seria um importante passo para combater a violência contra a mulher.

Leia também: Uma agressão nunca vem sozinha

Em caso de violência ligue para 180 para receber orientação.

Para saber mais, recomendamos:

Campanha da ONU: Una-se pelo fim da violência contra as mulheres

Boletim do CFEMEA: Mulheres pelo fim da violência contra mulheres negras

Saiba mais sobre feminicídio

Geledés – Instituto da Mulher Negra

Portal Quebre o Ciclo

Este texto é uma parceria de Natalia Mendes do TodasNós e Thiago Domenici do Nota de Rodapé e faz parte da Blogagem Coletiva proposta pelas Blogueiras Feministas.

Quando não falam comigo

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Que a língua portuguesa é machista não é grande novidade. Só pra ilustrar, não lembro onde li  ou vi, um bom exemplo:  numa situação em que três mulheres atravessam a rua, basta um cachorro pra virar “eles atravessaram a rua”.

Temos o hábito de sempre falarmos o plural no masculino – “vou viajar com os meus amigos” – ou quando uma mulher está grávida ou fala sobre a possibilidade de engravidar repete “meu filho”, antes mesmo de ter como saber se será menino ou menina. Quando escrevemos um e-mail para muitas pessoas começamos com “caros”, ou “queridos”, ou “meninos”… e sempre que recebo um desses tenho a sensação que a pessoa não está falando comigo.

Pode parecer bobagem, mas é uma situação incômoda pra mim, realmente não me sinto contemplada, sabe? (não vou nem comentar o tamanho do meu incômodo quando falam em “Homem” como sinônimo de humanidade, ser humano)

E acredito que uma coisa aparentemente pequena pode não ser tão pequena, na verdade. Em situações assim que, mesmo sem perceber, mais reproduzimos machismos. Assim como em piadas – que reproduzimos racismo e homofobia também -, como as clássicas “mulher não sabe dirigir”, “ela é loira, por isso não entendeu”, ou quando amigos homens trocam ofensas-carinhosas como “veado” e “bichinha”. Isso sem falar do famoso “tá me estranhando” como reação a qualquer brincadeira vinda de outro homem, ou elogio, ou mesmo brincadeira. Mas nesses casos acho que a coisa não é tão inconsciente assim…

O uso de termos e piadas assim, muitas vezes, acabam por naturalizar alguns preconceitos sem nos darmos conta. Claro que não é porque um cara brincou com um amigo chamando-o de “veado” que ele é homofóbico necessariamente. Mas, ao reproduzir essa associação de homossexualidade a uma caracaterística negativa, ele ajuda a naturalizar essa ideia.

Um caso que me fez pensar muito nisso, foi quando trabalhava num lugar que tinha muito mais mulheres do que homens (tipo 10 mulheres e 2 homens, mais ou menos) e uma delas mandou um e-mail pra todxs que começava com “meninos”. Respondi perguntando porque ela tinha começado a mensagem daquela maneira. A resposta dela, naturalmente foi “tem meninos aqui, ué”.

Quando questionei o “meninos” foi pensando que tinha sido uma desatenção, achei que era mesmo um erro gramatical, não foi provocação nem nada – hoje talvez eu fizesse a mesma pergunta para provocar. Mas a nossa gramática é machista né. E desse ponto de vista ela realmente não estava errada. Só que continuei desconfortável, pra mim continuava sendo errado.

Por causa de situações assim (que são incrivelmente frequentes), hoje tento mudar isso o máximo possível nos meus textos, mensagens, e-mails e falas. Procuro outras formas, reformulo frases, recorro ao parentêses – (as). Claro que também dou minhas escorregadas, mas o exercício é ótimo e me faz enxergar e descobrir novas formas de machismo. E isso ajuda a dar visibilidade a mulheres.

Recomendo esse texto que tem muito a ver com esse pensamento e fala sobre a invisibilidade das mulheres negras.

É uma reeducação pra lembrarmos que falamos com homens e mulheres – e mulheres e homens negrxs, né. E que homens não se “sobrepõem” às mulheres em nenhuma situação – nem o contrário.

Natalia Mendes

Sobre o aborto

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Nunca abortei. E, sinceramente, não sei se teria coragem de abortar. Sim, é preciso muita coragem para isso. Ao contrário do que muitos podem pensar, tomar essa decisão e assumi-la não é nada fácil.

Mas o engraçado é que essa possibilidade de escolha sempre foi natural pra mim. Há alguns anos, eu simplesmente não pensava que alguém seria contra ou a favor essa decisão. Muito provavelmente por eu fazer parte da classe média, ou seja, da que menos sofre com o fato do aborto ser ilegal,  já que mesmo que fique apertado dá pra pagar um procedimento (que é muito caro).

Sabemos que quem mais sofre com situações de abortamento são mulheres pobres e negras, que não têm dinheiro para pagar o procedimento de uma forma mais segura e acabam recorrendo a meios super perigosos, além de sofrerem discriminação ao procurarem atendimento médico.

Acho importante esclarecer que quem defende a legalização do aborto defende que mulheres que tem uma gravidez indesejada tenham como escolher, possam tomar uma decisão em relação ao seu corpo e sua vida, que as mulheres que fizerem essa escolha tenham condições decentes para isso, não o aborto em si.

Assim como eu, tem muita mulher por aí que nunca faria um aborto e nem por isso se sente no direito de decidir por todas as outras mulheres.

Para algumas pessoas abortar ou não entra num âmbito religioso. E isso merece respeito. Mas por que VOCÊ escolheu uma religião que vê o aborto como pecado, por exemplo, EU não posso ter uma posição contrária? O argumento religioso não pode servir nas leis brasileiras – ou não deveria, pelo menos – afinal, teoricamente, o Estado é laico.

É muito comum ouvir que “se o aborto for legalizado todo mundo vai querer sair abortando por aí”. Isso é um mito. As coisas não são tão simples. Escolher não prosseguir com uma gravidez é uma decisão difícil, e quem faz essa escolha não esquece tão facilmente e ainda carrega um estigma.

Recomendo a todas as pessoas que tenham algum interesse pelo assunto, independente de ter uma opinião formada sobre ou não, que leia os textos da Blogagem Coletiva pela Descriminalização e Legalização do Aborto, que estão ótimos e trazem informações e ideias muito importantes.

Também vale a pena ler esse texto do Drauzio Varella que considero bem esclarecedor.

Natalia Mendes

Slutwalk em Florianópolis: contra o machismo e a censura

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Texto e imagens de Juliana Kroeger e Fernando Evangelista 
(especial de Florianópolis, SC, publicado originalmente no Nota de Rodapé)

Mais de 300 pessoas participaram da Marcha das Vagabundas e da Marcha da Liberdade em Florianópolis na tarde do último sábado. As manifestações ocorreram simultaneamente e seguiram juntas pela Avenida Beira-Mar Norte, a mais movimentada da Capital catarinense.

Diferentemente do que havia sido combinado com a Polícia Militar, manifestantes ocuparam uma das pistas da avenida. Apesar de alguns momentos de tensão, não houve confronto entre policiais e ativistas.

O ato reuniu jovens de todas as tribos, com diversas bandeiras. Estavam presentes feministas, defensores da legalização da maconha, representantes do movimento LGBT, do Movimento Passe Livre e do Movimento Sem Terra, além de defensores dos animais, anarquistas e socialistas. Tinha de tudo, com exceção de políticos ou bandeiras de partidos.

A Marcha pela Liberdade foi convocada em todo o Brasil em protesto à repressão policial, ocorrida durante a Marcha da Maconha em São Paulo no dia 21 de maio. Depois da péssima repercussão do fato, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a realização das marchas favoráveis à descriminalização do uso da maconha. Marchar, portanto, não é sinônimo de apologia às drogas, mas um direito.

Direito de escolha e liberdade de expressão foram duas das principais bandeiras presentes no ato desse sábado. Por isso, os grupos realizaram as marchas ao mesmo tempo. Segundo os organizadores, a reivindicação de fundo é a mesma. O manifesto lançado em São Paulo sustenta que “a liberdade de expressão é o chão onde todas as outras liberdades serão erguidas: de credo, de assembleia, de amor, de posições políticas, de orientação sexual, de cognição, de ir e vir… e de resistir”.

Para a estudante Ana Paula Boscatti, organizadora da Marcha das Vagabundas em Florianópolis, um dos objetivos do ato é lutar contra os preconceitos. “Estamos aqui para dizer um basta ao machismo, para mostrar que as mulheres são agentes de sua própria sexualidade”.

A Marcha das Vagabundas, também chamada de Marcha das Vadias, surgiu em Toronto, no Canadá, depois que um policial disse, numa palestra sobre segurança, que as mulheres deveriam evitar se vestir como vagabundas para não serem estupradas. Pelas redes sociais da internet, ativistas em diversas cidades dos Estados Unidos, da Europa e da América Latina organizaram atos em repúdio à declaração do policial. Em São Paulo, no começo de junho, ocorreu a primeira Slutwalk brasileira.

Para Cintia Lima, 27 anos, mestranda em História na Universidade Federal de Santa Catarina, as conquistas feministas são consequência de muita luta e, apesar dos avanços, ainda é preciso ir às ruas. “Nossa ideia, com esse movimento, é desconstruir mentalidades. Ainda estamos submetidas a uma forte moral cristã, que julga nossas roupas, nosso comportamento, tudo”, argumenta. Segundo o Relatório Mundial da Desigualdade de Gênero de 2010, o Brasil ocupa a 85º posição, entre os 134 países avaliados. De acordo com pesquisa da Fundação Perseu Abramo, a cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas no Brasil.

Autonomia sobre o próprio corpo foi uma das reivindicações mais presentes na marcha. “Piranha é peixe, eu sou mulher”, estava escrito em uma das faixas. “Se eu quisesse ser comida, me vestiria de sanduíche”, dizia outra. Os manifestantes caminharam até a Casa d’Agronômica, residência oficial do governador do Estado. Em frente à Casa, realizaram intervenções artísticas e um grupo tirou parte das roupas, para espanto dos policiais e alegria dos fotógrafos.

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