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Das mocinhas de família

Publicado em

Por Bettie Page

Muitas coisas me irritam no mundo. Em parte porque eu talvez seja uma pessoa pouco tolerante, estou longe de ter a capacidade do meu pai, por exemplo, para compreender os outros. Em outra medida, acho que é porque o mundo está cheio de gente irritante mesmo.

Minha maior preguiça, ultimamente, é de nós, mulheres, ou melhor: de certos comportamentos femininos. Não suporto ouvir boazudas do BBB, modelos e atrizes se desdobrando para justificar porque resolveram arreganhar a boceta em revistas masculinas. Ou, então, procurando um motivo nobre para terem chupado paus e/ou peitos em filmes pornô, como se precisassem de um atestado de boa moça.

A última declaração do gênero que ouvi foi de Juliana Góes, ex-integrante do BBB 8, ao posar para a Playboy. Em entrevista ao Video Show, ela disse ter “ficado preocupada com o que a família ia pensar disso” e, assim, teria conversado com os pais antes de baixar a calcinha. Débora Secco faz questão de frisar que só tirou a roupa para garantir sua independência financeira. Mara Maravilha se autoflagela por ter tirado as tais fotografias – mas ela, eu até compreendo, já que entrou para o time dos que “aceitaram Jesus no coração”. De todas elas, porém, a ex-BBB Sabrina Sato é a que menos desfruta de minha paciência. Como se quisesse preservar sua condição de “moça pra casar”, explicou que, antes de revelar seus atributos, pediu autorização à mamãe e ao papai – olha que bonitinho.

Tanta necessidade de demonstrar pudor nada mais é, pra mim, que a constatação de que o mundo ainda é dos homens – e por um bom tempo será. Esse comportamento traduz como mesmo hoje até o uso dos nossos corpos depende do aval masculino, e o quanto temos medo de nos desvincular da imagem de mães respeitáveis dos filhos deles. Deparo-me com tudo isso e sinto um ranço de século XIX, em que éramos adestradas para corar as bochechas ao ouvir falar de sexo, assim como para tocar piano, bordar e falar francês. Há nisso tudo um cheiro nojento exatamente desse tempo, em que nos reduziam a três categorias: mãe, esposa e puta – a primeira, a quem o homem santifica; a segunda, com quem ele se casa; e a teceira, com quem ele trepa.

Não tenho intenção de fazer apologia ao ato de mostrar a bunda. Minha irritação, minha falta de paciência é com a necessidade que muitas mulheres se impõem de justificar suas escolhas. É com essa insistência em ressaltar: não sou puta, sou pra casar, corroborando um machismo latente que ainda nos taxa de vagabundas quando, em qualquer hipótese, decidimos exercer autonomia. Se abrir as pernas para o flash é uma decisão acertada, se é moral ou imoral, nem vou entrar no mérito da questão. Mas fato é que ninguém deve satisfações por isso. Se a figura vira o rabo para as câmeras por dinheiro ou simplesmente porque gosta da idéia de que punhetas serão batidas em sua homenagem, isso é com ela. Pelo amor do Bom Senso, por que é preciso instituir motivos e necessidades– muitas vezes hipócritas – para exercer uma vontade?

A escritora Adélia Prado é quem até hoje melhor definiu a classe feminina, quando, em um de seus poemas, nos chamou de “espécie ainda envergonhada”. Captou como ninguém, a Adélia, nossa insegurança, típica de quem está no meio de uma caminhada. Se não foi fácil conquistar os volantes de caminhões, mais difícil ainda está sendo soltar a corda e deixar de viver (literalmente) sob a vara do macho.

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