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Como uma diva

Publicado em

Por Shrek da Silva

A primeira vez da gente é mesmo marcante. Durante 29 anos fui fiel aos homens. Somente eles colocavam as mãos. Foram poucos, quatro no máximo. Um tinha bigode, outro era quase anão, sempre mais velhos, conversadores, com histórias que me entretiam num ambiente amigável. O típico local em que me sentia parte do todo, satisfeito mesmo. Me tratavam bem e faziam (quase) o serviço por poucos trocados. Sempre foi assim. Era um estilo.

Me afeiçoei ao último, um nordestino das terras próximas do Crato, no Ceará. Seu João, baixo, calado, calça social preta batida e camisa entreaberta que não dava para chamar de branca. Um machão respeitável, pai de oito filhos. Nos encontrávamos de dois em dois meses no mesmo pardieiro em SP. Nos cumprimentávamos enquanto a abatida televisão de 21 polegadas estava sempre sintonizada no mesmo canal. Às vezes, eu esperava. No fim, amenidades eram ditas e 10 mangos mais pobre ia eu feliz pra casa. Pensava: “Agora, só daqui a dois meses.” Foi então, sem mais, como num corte seco de um filme de ação, que mudei radicalmente. E eu estava tenso com aquela história de mudar radicalmente.

Era um sábado bem de tardezinha quando cheguei no local. Até a Camila Pitanga, a atriz Global, vai lá. O tema aqui, caro leitor, é o corte de cabelo mais caro da minha vida num salão respeitável da zona oeste de São Paulo. Aquela sensação do novo me aborrecia, mas era um presente e não podia recusar. O primeiro impacto foi o do luxo. Tinha manobrista, o design da casa era arrojado, decoração modernete pacas, cadeiras bem confortáveis, sofás caprichosos com direito a café, água e, dependendo da ocasião, champagne. “O que eu tô fazendo aqui?”, lamentei ao entrar e ver os olhares curiosos de mulheres postas em cadeiras com outras mulheres segurando seus pés, mãos e cabelos.

Não havia caos, mas um burburinho desconhecido para, julgo eu, a maioria dos homens. O que será que pensavam de mim? “Intruso”? Se você leitor me perguntar o motivo da mudança, logo adianto, o amor quebra mesmo preconceitos. Ruborizado (meio aterrorizado, vai!) cai nas mãos – ó, infiel – de uma moça de estatura baixa e igualmente modernete (é que gostei desse termo!). Em suas mãos uma perigosa navalha. “Mas onde raios foi parar a tesourinha velha de guerra?”, imaginei com humor. A moça (especialista também – atente ao nome – em design de sobrancelhas) veio logo mexendo no meu cabelo, mandando a assistente lavar com esse e aquele produto. Me explicou que cabelo liso se corta com navalha. Ufa! Ainda bem. Foram uns três ou quatro tipos de cremes antes da toalha e do secador. Na cadeirinha, como um bom menino envergonhado, esperava a minha vez. “Nooossaaaa, como você está linda com esse cabelo…”, diz uma mulher para outra. “Esse esmalte fica bom em mim?”, pergunta mais uma. Pareciam centenas, milhares de manicures com suas munições coloridas de marcas variadas… E ninguém para falar de futebol comigo?

Desperto com a pergunta. “Como você quer o corte?”. Silêncio… Nem eu sei. A minha vaidade capilar sempre foi dizer aos homens da barbearia: “tira o excesso e corta um pouco a franja”. Ela sugere mil coisas e a cena acontece sem eu saber o que pedi. Minuciosamente, concentradíssima, a navalha faz sua parte e os pedaços de cabelo vão deixando minha vida.

“Você vai ficar careca”, ela comenta despretensiosamente. O que? Pa-lha-ça-da! Como pode me dizer algo tão duro sem nem me conhecer direito? Sorrio, puto da vida. O espelhinho ao fim do corte – aquele que colocam atrás de você – salva minha recordação do Seu João. Ele dizia. “Tá bom?” e eu acenava que sim, pagava e ia embora. Na minha primeira vez, tive de esperar a namorada, responsável por toda essa incursão radical na capilocultora. E, confesso, me divirto desde então. Tenho saudades, sim, do Seu João, de gastar menos, mas não troco mais a navalha da mulher que me disse que vou ficar careca. Aquele ambiente pode, sim, fazer parte do universo masculino. Não tem bicho papão. E se tem, é só na sua cabeça.

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Uma resposta »

  1. Colaborações masculinas é muito bom!!! Espero que a “epidemia” prolifere!!!! Bjos

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