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Realengo, a mídia e o que não falam

Publicado em

Por Natalia

Quero compartilhar algumas coisas que penso sobre o caso de Realengo, porque acredito que seja muito importante falar de alguns pontos específicos.

Primeiro, o quanto o caso é chocante e comovente acho que é inquestionável. Por isso, acho um enorme absurdo a cobertura da mídia, que, além de não trazer informações, não apurar – sua função – usa os sentimentos das pessoas para tentar ganhar audiência. Ok, todos sabem que isso não é novidade, mas acho que dessa vez a falta de respeito ultrapassou ainda mais os limites (se é que isso existe) e foi mais ridículo até do que o caso Isabela. Não vou citar exemplos pra não encompridar muito e porque acredito que todos viram pelo menos um bom exemplo disso.

Além disso, a mídia não consegue passar informações corretas nem sobre a cor da roupa do assassino (não que isso seja importante, mas vamos combinar que não precisa de muito esforço pra acertar essa informação, então imaginem o resto). A cobertura está sendo feita sem a menor responsabilidade.

E o que considero um dos piores erros nessa história, a mídia está simplesmente ignorando que não foi por acaso que o cara matou mais meninas do que meninos. Ele escolhia quem matava (não é nada difícil perceber isso ouvindo os depoimentos das crianças). Ou seja, ele era machista e misógino, e esse crime que ele cometeu tem nome: feminicídio. Coisas desse tipo mostram que o machismo é perigoso (pois é, feminismo não é “não querer cozinhar por marido, dar pra quem quiser e não se depilar”, como muitos acreditam).

Vendo a carta que ele deixou, também podemos deduzir que tinha um fanatismo religioso – a mídia só deu atenção a essa possibilidade quando quis associar ele de qualquer jeito ao islamismo, depois de ver que era cristão, ignorou a questão. Esses são dois pontos muito importantes dessa história! Ou vocês acham que ele pensou tudo isso sozinho? Sem influência de nada externo? Claro que não. Isso é resultado de uma série de fatores, é uma questão social, ou seja, que diz respeito a sociedade, a nossa cultura.

E se é uma questão social, importa para tod@s nós. Não é porque você não conhecia esse cara, ou porque nenhum(a) amigo(a) seu (sua) saiu atirando em mulher, ou em gay, ou em negro, que suas “brincadeirinhas” ou “piadinhas” (existem piadas e piadas) não influenciam as pessoas (falo de gays e negros porque são agredidos e assassinados, por racismo e homofobia – que devia ser crime como o racismo -, assim como mulheres por causa do machismo). Sim, nós ajudamos a formar a opinião das pessoas – de um jeito ou de outro, em maior ou em menor grau, mas influenciamos.

Então, é importante que a gente fale em machismo, misoginia, feminicídio, religião (não “falar mal” de religião, mas refletir sobre a questão).

Não é nada saudável incitarmos o ódio. Os fatos já são chocantes, não precisamos colocar o Wellington como “monstro”, demônio, nem nada. Seus atos já assustam o suficiente. Pelo pouco que entendo de psicologia (psicólogos e psicólogas, me corrijam se eu estiver errada), ele era um psicótico – que não é a mesma coisa que psicopata.

Acho que precisamos (tentar pelo menos) entender (que não é a mesma coisa que justificar), para, quem sabe, evitar que mais episódios como esse aconteçam. Não é colocando polícia em escola, detector de metais que vamos resolver alguma coisa. O buraco é muito mais embaixo.

Fiquei chocada, horrorizada e também chorei assistindo noticiários na TV, como muita gente. Por isso mesmo, acho que devemos pensar sobre o que a mídia (não) fala e não incitar, ainda mais, o ódio.

Recomendo mais dois textos que falam sobre isso: Feminicídio: O nome do crimeAssassinos de mulheres e seus crimes de ódio silenciados

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  1. Sabe que o “olho” às vezes é tão destreinado que ñem se percebe que foi um crime contra a mulher. Por um tempo pensei: elas estão delirando. É como racismo, “ninguém” vê mas todos sofremos…

    Abraço!

    Responder
  2. Oi, Charô,
    acredito que é bem por aí mesmo. A gente se acostuma tanto com uma coisa, que fica difícil ter um outro olhar, às vezes.
    Obrigada pelo comentário :)

    Responder
  3. Tenho a mesma opinão q vc a respeito do perfil do assassino e de como foi a cobertura feita pelo Fantástico ontem. Tudo uma encenação. Só pra dar a impressão que se importam com o que aconteceu. Agora que já passou eles devem estar torcendo pra que outra desgraça aconteça em breve pra fazer uma cobertura miope (como vc disse) dos fatos. Audiência em 1° lugar! #credo

    Responder
    • Pois é, Jaque,
      infelizmente, a “grande mídia” costuma ter mais interesse em audiência do que em cumprir sua principal função: informar. E o poder da mídia sobre as pessoas é tão grande que é absurdo não se preocupar com o que isso pode trazer como consequência.

      Obrigada pelo comentário =)

      Responder
  4. Pingback: Realengo, a mídia e o que não falam « todasnos | Media Brasileiro

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