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Uma analogia: De quem você acha que é a culpa?

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Um homem entra esbaforido na delegacia.

– Senhor delegado, roubaram meu celular!

– Calme aí, senhor. Precisamos verificar se o celular era do senhor mesmo…

– Claro que é meu. Por favor, foi agora mesmo, aqui na porta, o cara ainda nem deve ter virado a esquina!

– Assim que o senhor terminar de preencher essa papelada, daremos início às buscas.

Papeladas preenchidas, um policial entra na delegacia carregando um sujeito pelo colarinho. Cara tranqüila, o detido tinha um ar bem seguro de si.

– Prendemos esse sujeito depois que ele roubou um celular de dentro de uma bolsa, delegado.

– Chama aquele outro que veio dar queixa aqui, pode ser o mesmo cara que roubou ele também.

O homem já-nem-tanto-esbaforido-mas-

com-raiva-contida entra e reconhece o ladrão.

– Sim, esse mesmo, esse cara que roubou meu celular.

– É verdade isso? Você roubou o celular desse senhor?

– Delegado… roubar, não roubei. Mas eu peguei, de fato. Mas foi consensual.

– Como assim?

– Ele estava andando na rua falando alto no celular. Quer dizer, um cara assim, falando alto, no centro da cidade, tá querendo ser roubado, né?

– É verdade isso? O senhor estava dando esse mole pra bandido?

– É, mas e daí? Era uma ligação urgen…

– Pelamordedeus, o senhor estava ostentando o celular, chamando atenção, no meio da rua, pra mim, ficou muito claro: o senhor estava querendo ser roubado.

– Hein?! Quem QUER ser roubado?

– Ah, vá, que o senhor não estava querendo?

O delegado dirige-se ao cara que tomou o celular:

– Meu senhor, desculpe o incômodo. Claramente o senhor não fez nada de errado. A culpa foi dele – apontando pro sujeito que teve o celular roubado, que estava atônito. O ladrão responde na mesma calma:

– Isso já aconteceu comigo antes. Agora, quem vai fazer um BO sou eu. Vou processar esse cara pelos danos morais que ele me causou. E olha, já passei por isso, processei e ganhei.

O delegado faz um sinal de aprovação e, resignado, aponta novamente para o sujeito que não tem mais o celular.

– Ele tem razão, o senhor está encrencado. Teixeira, algema nele. Vamos ter que manter o senhor detido, entende, foi flagrante, e todos nós fomos testemunhas. Vamos levar o senhor lá pra dentro e, bom… se o senhor estiver escondendo mais algum celular aí, na roupa, saiba o senhor que nós vamos procurar. E nós vamos achar.

O ladrão, batendo papo com o delegado, emenda:

– E outra, celular feio pra porra que esse cara tinha. Tinha mais que me agradecer, que ele vai comprar um novo e eu vou ficar com esse traste. Ninguém ia querer um celular desses.

Rodrigo Mendes de Almeida
rmendesas@yahoo.com.br

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  1. analogia das mais simétricas, quase um retrato… ótima!

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  2. Muito bom!
    Mas tem pessoas que insistem em não entender. Pessoas cabeça-dura que nos dizem: Eu acho que a culpa também é dela e ponto. Eu não quero saber a sua. Você pode respeitar minha opinião? Impor respeito e não respeitar a opinião dos outros é fácil!

    Responder
  3. Pingback: Estupro não é sexo |

  4. Incrível, muito bom, só dói ver apenas três comentários aqui enquanto tem um monte de barbaridade sendo postada a cada segundo na rede contrariando essa ideia…

    Responder
  5. Diana Prallon

    Excelente texto, muito bem bolado, bem escrito, e muito real (infelizmente).

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