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Aconteceu comigo

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Jamais imaginei, do alto da minha ignorância, que coisas desse tipo aconteciam com pessoas como eu. Classe média, branca, estudada, vinda de “boa família”. Quando, numa determinada manhã me vi na delegacia da mulher, abrindo uma ocorrência contra o namorado que havia tentado me estrangular, a ficha caiu.

Nos meses seguintes, me dei conta de que aquela nem tinha sido a primeira violência que eu, como mulher, havia sofrido; não foi a primeira naquele relacionamento e, muito menos na minha vida toda.

Sou filha de um pai abusivo. Não que não me ame, mas a única forma que ele conhecia para educar uma criança era batendo. Apanhei bastante, talvez tivesse apanhado também se fosse menino, mas a questão é que isso inseriu em mim uma figura masculina autoritária, conservadora e violenta.  Se eu fosse menino, ou uma mulher menos consciente hoje, talvez reproduzisse o modelo do meu pai. Cresci fragilizada, um pouco insegura e machista. Por criação, não por essência.

Aos 12 anos, ainda menina e cheia de bonecas nas prateleiras, fui assediada por um tio. Estava deitada no sofá assistindo TV depois da escola em uma tarde qualquer e ele chegou me alisando. Apesar de não entender direito o que estava acontecendo, eu sabia. Sabia que era errado e abusivo. Diante da minha impotência, corri, me escondi e chorei. A desculpa do “tio” era de que o meu short era muito curto e, portanto, eu havia provocado seus instintos.

Cresci com isso sem nunca falar com ninguém. Me sentindo injustiçada por ter nascido mulher; durante fases da adolescência, usando roupas largas e folgadas com medo de chamar uma atenção “inadequada”. E mesmo assim, chamava. E me sentia culpada.

Demorei muitos anos para começar a lutar. Por mim, pelas outras mulheres que conheço e por todas as mulheres no mundo. Demorei também pra entender que a violência contra a mulher é ampla. Muitos são os casos e muitos são os níveis. E todos eles, sem exceção, causam traumas, humilham, nos diminuem como pessoas.

O machismo que impera na sociedade, a noção de que, por nascermos mulheres somos mais frágeis, descartáveis, meros pedaços de carne. Sofremos violência constante quando somos expostas como bifes no açougue pela mídia; quando andamos na rua e somos assediadas; quando apanhamos de nossos maridos, companheiros, namorados, amigos; quando somos abusadas e/ou estupradas.

E muitas vezes não nos damos conta destas violências, principalmente as mais sutis. Também, em alguns casos, as mulheres sabem da violência a que são submetidas, mas o machismo social impõe que elas devem agüentar e serem fortes. Muitas delas acabam morrendo. Mesmo as que denunciam as vezes acabam morrendo. Os dados da ONU que compõem o texto da Natália Mendes e do Thiago Domenici são assustadores.

O dia 25 de novembro é um dia emblemático, de luta. Mas a luta continua em todos os outros 364 dias por ano que temos para lutar, para gritar o basta a violência.

Violência contra a mulher seja física, verbal ou psicológica não deve ser permitida, não deve ser cometida. Denuncie, conscientize, eduque.

Ana Montenegro


Este texto faz parte da Blogagem Coletiva proposta pelas Blogueiras Feministas.

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  1. Pingback: Blogagem Coletiva: Fim da Violência Contra a MulherBlogueiras Feministas | Blogueiras Feministas

  2. Um relato contundente, sincero e de coragem. Obrigado por compartilhar conosco! :)

    Responder
  3. Parabéns pelo relato! Compartilho seu não ao silencio!!

    Responder
  4. Muito obrigada por ter escrito isso. Sei que não deve ser fácil a compartilhar, mas é importante.

    Responder
  5. Ana Montenegro

    Obrigada Thiago, Brunela e Juliana.Realmente o assunto não é agradável, mas extremamente necessário de ser compartilhado! Obrigada pela visita!

    Responder

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