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Violência contra a mulher, até quando vamos ignorar?

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Nesse final de semana aconteceu uma coisa horrível e que acontece com frequência. Mas dessa vez foi transmitido ao vivo pela maior emissora de TV do Brasil. E é também por isso que não podemos deixar de falar sobre o caso. Não importa se você odeia a Globo e não suporta BBB.

Talvez você não esteja entendendo. Explico. Na madrugada de sábado para domingo, houve a primeira festa do BBB 2012 e, como sempre, muita bebida. Durante a festa, um dos participantes tentou mais de uma vez beijar uma das bonitonas da casa. Ela não quis, rejeitou o cara. Ficou bêbada e foi deitar – pelos relatos que li, já era de manhã e ela foi deitar sozinha. O tal cara que já tinha tomado um fora da mulher foi e deitou com ela. E abusou dela. Ela dormindo, visivelmente inconsciente, sem se mexer, e o cara fazendo movimentos sexuais – não dá pra saber se era punheta, penetração, se estava bolinando, mas era nítido que se aproveitava do corpo inerte da mulher.

O público que acompanhava ao vivo pelo PPV começou a comentar nas redes sociais e mostrar grande indignação. O vídeo vazou na internet. São aproximadamente sete minutos que me deixaram muito chocada. Não dá pra ter dúvidas de que o cara realmente se aproveitou dela. Na verdade, o nome disso é estupro (estupro não acontece só em beco escuro com um maluco desconhecido te agarrando a força, tá?). E o crime foi transmitido ao vivo. A produção do programa não fez nada. Para mais detalhes da história, recomendo muito esse texto (e outros textos desse mesmo blog que vem em seguida).

Depois da mobilização nas redes sociais e a hashtag #DanielExpulso chegar em primeiro lugar dos Trending Topics do Twitter, o diretor do BBB, Boninho, chamou a mulher que foi violentada ao confessionário para falar sobre o episódio. A conversa foi privada, o público não tem como saber exatamente o que foi dito. Boninho disse que ela afirmou ter sido consensual. O que ele não disse é que ela não lembra o que aconteceu. Isso ela fala em outros momentos, em diferentes conversas. Inclusive pro próprio Daniel, que mentiu pra ela dizendo que foram dois beijinhos e que “passou a mão”. Não foi só isso.

E a situação ainda conseguiu piorar. Fiz questão de assistir BBB no domingo pra ver se e como abordariam essa história absurda. Mostraram ele xavecando ela na festa. Mostraram ela de saco cheio dar um selinho nele na festa. Mostraram ela dando um fora bem dado nele na festa. E daqueles sete minutos de vídeo, mostraram apenas alguns pouquíssimos segundos que parece que ela se mexe um pouco. Fizeram parecer que era um “amasso”. Mostraram como se fosse uma “troca de carícias”. Mas não é uma troca se só uma pessoa faz e a outra nem sabe, né? Ou seja, não é consensual. E a cereja do bolo: Pedro Bial pergunta ao vivo para a mulher se foi só uma ficada ou se tem algo mais e ainda solta um “o amor é lindo”. (realmente difícil saber o que o Bial entende por amor). Ela, visivelmente muito sem graça, responde “foi só um lance”. Um lance. Afinal, ela não sabe o que aconteceu.

O problema é maior do que isso

E por que falo tanto do BBB? Porque esse programa que tem mil defeitos e que pessoas inteligentes “de verdade” não “podem” assistir é um reflexo do que acontece fora daquela casa e longe das câmeras. Talvez você nem saiba, mas a chance de alguma conhecida sua ter passado por uma situação semelhante é muito grande.

Essa história me deixou mal. Muito mal mesmo. Já vi essa história acontecer mais de uma vez. E não foi pela televisão. Cheguei a tentar escrever sobre isso em outras situações, mas não consegui. Muita gente diz que é “exagero”. Como pode ser exagero alguém se aproveitar do seu corpo enquanto você não tem condições de reagir? E se fosse com você? E se fosse sua mãe/filha/filho? Já imaginou?

Tenho uma amiga que passou por isso. E não foi com um desconhecido na rua. Foi com um conhecido, que até então era considerado um amigo. E foi na casa de uma amiga, um ambiente que costumamos acreditar ser seguro. Foi situação que você imagina que não ofereça grandes riscos. Pois é.

Ela demorou alguns dias pra lembrar e entender o que aconteceu. Mas entendeu, ela foi estuprada. E os(as) amigos(as) o que acharam? O que sempre acham, ela estava bêbada e se arrependeu do que fez. Ela foi vítima, não culpada. Exatamente como essa mulher do BBB. Exatamente como outras inúmeras mulheres.

A Globo está sendo omissa e extremamente irresponsável ao não dar o devido valor ao que aconteceu. No mínimo, deveria levar o caso mais a sério permitir que a participante assistisse ao vídeo, acompanhada de advogado(a) e/ou terapeuta e/ou algum familiar, para ver como agir posteriormente. Ao tentar vender o caso como uma “história de amor” para o público do programa, está estimulando, mais uma vez, o machismo e afirmando que vítima pode ter culpa de alguma coisa. Uma vítima NUNCA será a culpada por ter sofrido violência. Ser omissa numa situação dessas é tomar partido, o partido que acha que violência contra a mulher é um problema “secundário”.

Você pode querer ignorar o BBB e a Globo, mas não ignore a violência que está logo embaixo do seu nariz.

 

Alguns textos sobre o assunto que recomendo:

Quando o Lobo Mau vira o Príncipe Encantado

Violência sexual no BBB e muito machismo fora dele

Eu não quero mais viver neste mundo

A cena do Big Brother é um problema do Brasil

Com consentimento da sociedade

O “Boa noite Cinderela” do BBB

Natalia Mendes

Este texto está sendo publicado em parceria com Nota de Rodapé.

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Uma analogia: De quem você acha que é a culpa?

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Um homem entra esbaforido na delegacia.

– Senhor delegado, roubaram meu celular!

– Calme aí, senhor. Precisamos verificar se o celular era do senhor mesmo…

– Claro que é meu. Por favor, foi agora mesmo, aqui na porta, o cara ainda nem deve ter virado a esquina!

– Assim que o senhor terminar de preencher essa papelada, daremos início às buscas.

Papeladas preenchidas, um policial entra na delegacia carregando um sujeito pelo colarinho. Cara tranqüila, o detido tinha um ar bem seguro de si.

– Prendemos esse sujeito depois que ele roubou um celular de dentro de uma bolsa, delegado.

– Chama aquele outro que veio dar queixa aqui, pode ser o mesmo cara que roubou ele também.

O homem já-nem-tanto-esbaforido-mas-

com-raiva-contida entra e reconhece o ladrão.

– Sim, esse mesmo, esse cara que roubou meu celular.

– É verdade isso? Você roubou o celular desse senhor?

– Delegado… roubar, não roubei. Mas eu peguei, de fato. Mas foi consensual.

– Como assim?

– Ele estava andando na rua falando alto no celular. Quer dizer, um cara assim, falando alto, no centro da cidade, tá querendo ser roubado, né?

– É verdade isso? O senhor estava dando esse mole pra bandido?

– É, mas e daí? Era uma ligação urgen…

– Pelamordedeus, o senhor estava ostentando o celular, chamando atenção, no meio da rua, pra mim, ficou muito claro: o senhor estava querendo ser roubado.

– Hein?! Quem QUER ser roubado?

– Ah, vá, que o senhor não estava querendo?

O delegado dirige-se ao cara que tomou o celular:

– Meu senhor, desculpe o incômodo. Claramente o senhor não fez nada de errado. A culpa foi dele – apontando pro sujeito que teve o celular roubado, que estava atônito. O ladrão responde na mesma calma:

– Isso já aconteceu comigo antes. Agora, quem vai fazer um BO sou eu. Vou processar esse cara pelos danos morais que ele me causou. E olha, já passei por isso, processei e ganhei.

O delegado faz um sinal de aprovação e, resignado, aponta novamente para o sujeito que não tem mais o celular.

– Ele tem razão, o senhor está encrencado. Teixeira, algema nele. Vamos ter que manter o senhor detido, entende, foi flagrante, e todos nós fomos testemunhas. Vamos levar o senhor lá pra dentro e, bom… se o senhor estiver escondendo mais algum celular aí, na roupa, saiba o senhor que nós vamos procurar. E nós vamos achar.

O ladrão, batendo papo com o delegado, emenda:

– E outra, celular feio pra porra que esse cara tinha. Tinha mais que me agradecer, que ele vai comprar um novo e eu vou ficar com esse traste. Ninguém ia querer um celular desses.

Rodrigo Mendes de Almeida
rmendesas@yahoo.com.br

Slutwalk em Florianópolis: contra o machismo e a censura

Publicado em

Texto e imagens de Juliana Kroeger e Fernando Evangelista 
(especial de Florianópolis, SC, publicado originalmente no Nota de Rodapé)

Mais de 300 pessoas participaram da Marcha das Vagabundas e da Marcha da Liberdade em Florianópolis na tarde do último sábado. As manifestações ocorreram simultaneamente e seguiram juntas pela Avenida Beira-Mar Norte, a mais movimentada da Capital catarinense.

Diferentemente do que havia sido combinado com a Polícia Militar, manifestantes ocuparam uma das pistas da avenida. Apesar de alguns momentos de tensão, não houve confronto entre policiais e ativistas.

O ato reuniu jovens de todas as tribos, com diversas bandeiras. Estavam presentes feministas, defensores da legalização da maconha, representantes do movimento LGBT, do Movimento Passe Livre e do Movimento Sem Terra, além de defensores dos animais, anarquistas e socialistas. Tinha de tudo, com exceção de políticos ou bandeiras de partidos.

A Marcha pela Liberdade foi convocada em todo o Brasil em protesto à repressão policial, ocorrida durante a Marcha da Maconha em São Paulo no dia 21 de maio. Depois da péssima repercussão do fato, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a realização das marchas favoráveis à descriminalização do uso da maconha. Marchar, portanto, não é sinônimo de apologia às drogas, mas um direito.

Direito de escolha e liberdade de expressão foram duas das principais bandeiras presentes no ato desse sábado. Por isso, os grupos realizaram as marchas ao mesmo tempo. Segundo os organizadores, a reivindicação de fundo é a mesma. O manifesto lançado em São Paulo sustenta que “a liberdade de expressão é o chão onde todas as outras liberdades serão erguidas: de credo, de assembleia, de amor, de posições políticas, de orientação sexual, de cognição, de ir e vir… e de resistir”.

Para a estudante Ana Paula Boscatti, organizadora da Marcha das Vagabundas em Florianópolis, um dos objetivos do ato é lutar contra os preconceitos. “Estamos aqui para dizer um basta ao machismo, para mostrar que as mulheres são agentes de sua própria sexualidade”.

A Marcha das Vagabundas, também chamada de Marcha das Vadias, surgiu em Toronto, no Canadá, depois que um policial disse, numa palestra sobre segurança, que as mulheres deveriam evitar se vestir como vagabundas para não serem estupradas. Pelas redes sociais da internet, ativistas em diversas cidades dos Estados Unidos, da Europa e da América Latina organizaram atos em repúdio à declaração do policial. Em São Paulo, no começo de junho, ocorreu a primeira Slutwalk brasileira.

Para Cintia Lima, 27 anos, mestranda em História na Universidade Federal de Santa Catarina, as conquistas feministas são consequência de muita luta e, apesar dos avanços, ainda é preciso ir às ruas. “Nossa ideia, com esse movimento, é desconstruir mentalidades. Ainda estamos submetidas a uma forte moral cristã, que julga nossas roupas, nosso comportamento, tudo”, argumenta. Segundo o Relatório Mundial da Desigualdade de Gênero de 2010, o Brasil ocupa a 85º posição, entre os 134 países avaliados. De acordo com pesquisa da Fundação Perseu Abramo, a cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas no Brasil.

Autonomia sobre o próprio corpo foi uma das reivindicações mais presentes na marcha. “Piranha é peixe, eu sou mulher”, estava escrito em uma das faixas. “Se eu quisesse ser comida, me vestiria de sanduíche”, dizia outra. Os manifestantes caminharam até a Casa d’Agronômica, residência oficial do governador do Estado. Em frente à Casa, realizaram intervenções artísticas e um grupo tirou parte das roupas, para espanto dos policiais e alegria dos fotógrafos.

Marcha das Vadias em BSB: Contra o machismo sob sol e sorrisos

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Texto e imagens por Manaíra Lacerda e Rodrigo Mendes de Almeida

Foi o que se pode chamar de uma grata surpresa. Contamos facilmente algo mais que 800 pessoas para a versão brasiliense da Marcha das Vadias. Ao chegarmos ao local, nem sabíamos se seria fácil achar a manifestação, já que, nas nossas cabeças, ela estaria diminuta. Mas que nada. De longe começamos a ouvir os apitos, carregados pelo vento, já que na topografia plana do Planalto Central, o som alcança bem longe.

Uma marcha de deixar feliz quem foi participar. Tocando na ferida, como tem sido a recente onda de mobilização de “vadias”. O grande questionamento é contra o machismo que responsabiliza a vítima por um crime cometido contra ela – no caso, bota na mulher que é estuprada a culpa pelo crime.

A discussão é avançada, e a grande penetração que teve mostra que pelo menos uma parte da sociedade está avançando nesse debate. E vai impor o tema como pauta. Uma das boas surpresas foi ver homens abraçando o manifesto que aconteceu da forma mais pacífica possível, ou seja, sem nenhuma violência. Tanta tranqüilidade que pôde até ser chamada do que muitos conhecem como “programa de família”. Crianças e até cachorros estavam no meio da multidão, divertidos com o sábado diferente.

Uma tropa da polícia militar acompanhou todo o percurso, que começou perto da rodoviária de Brasília e foi até a Torre de TV debaixo de um sol escaldante. Para quem não conhece a capital brasileira, a distância é algo em torno de 3 km. Lembrando: sob o sol e a seca desta terra vermelha. Mesmo com as intempéries, a manifestação fez surgir muitos sorrisos de gente satisfeita por estar fazendo algo que, talvez, possa mudar os rumos de uma sociedade machista.

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