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Pela desconstrução de preconceitos

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Uma das formulações mais interessantes que eu vi nos últimos anos dizia que, de forma geral, as saídas que o nosso sistema atual de produção e relação social propõe para os nossos problemas são individuais, e nunca sistemáticas, globais.

Ou seja, pela lógica da nossa sociedade, é impossível haver uma solução para que ninguém mais seja miserável, para que ninguém mais passe fome. Todas as formas de superação de condições sub-humanas se dão numa perspectiva puramente individual.

É a tal da “igualdade de oportunidade”. Todos teriam (e nem isso é verdade) as mesmas oportunidades de sobreviver com decência em um mundo corroído pelas mais vis corrupções. Nem todos o farão. Sempre terá que haver alguém que passa fome, alguém que pede esmola na rua, alguém que míngua como um animal inferior, à margem. Mas essa pessoa está assim por sua culpa, pelo menos em parte, pois ele teve a “oportunidade” de superar essa situação. Mas não há espaço ao Sol para todos.

Me parece que os processos de cunho progressista, onde se verifica que a nossa sociedade avança, têm esse caráter, e alguns recentes acontecimentos mostram isso reiteradamente.

É o caso, por exemplo, da recente mobilização, que aconteceu em várias partes do mundo e é promissora, das Marchas das Vadias. Diversas cidades do mundo foram testemunhas de passeatas e discussões absolutamente saudáveis, com alguns dos fatores que compõem o que há de mais avançado em termos de discussão de gênero.

Acho, honestamente, que essa mobilização tem um potencial muito grande de promover avanços tremendos contra o machismo na sociedade. Não só pela capacidade cada vez mais evidente de mexer com as pessoas mas por tocar “no ponto”, acertar na mosca alguns dos pontos mais fundamentais do debate de gênero.

E não há aqui um debate sobre a superação do “preconceito” de forma geral. Claro que esbarro em uma discussão muito mais profunda e da qual não tenho propriedade que é “o que é preconceito”, e “quais os mecanismos sistêmicos que o compõem”, essas coisas. O que há são episódios em que se discute alguma opressão de maneira isolada. E isso não faz com que essa discussão não seja progressista. Pelo contrário, acho que é o que há de mais progressista hoje.

Mas como o debate de gênero se encaixa numa perspectiva mais global de combate às opressões? Como a Marcha da Maconha, como a vitória dos direitos dos homossexuais no Supremo Tribunal Federal, que podem ter sua união civil reconhecida, como a causa dos palestinos, que continuam sendo usados como alvo móvel na prática de tiro ao alvo de recrutas israelenses, como as mobilizações no Oriente Médio, podem ser colocadas numa mesma perspectiva? Há algo que se faça que se avance em todos esses temas ao mesmo tempo, de maneira globalizada, sistêmica?

Um dos fatores que podem ser abordados é o papel pedagógico que cada uma dessas mobilizações tem, em potencial, de ajudar as “outras” causas. Uma greve de trabalhadores pode ter um papel fundamental para quem está de fora, seja para chamar atenção para a causa, para forçar uma negociação… mas quem está dentro da mobilização, marchando ao lado de seu colega, sofre brutais transformações e revoluções internamente. Quem participa de uma mobilização contra o preconceito tende a ser muito mais aberto a rever seus preconceitos do que quem é educado a não ser mais preconceituoso pela televisão. Ambos estão avançando. Mas um deles de maneira unidimensional.

Li recentemente uma matéria que dava uma leve desqualificada em recentes manifestações, em especial na “Marcha da Liberdade”. O argumento é que a mobilização era meio “saco de gato”, com todo tipo de reivindicação, contra o machismo, contra a homofobia, a favor da legalização da maconha… Será que essas pautas são isoladas uma da outra? Não tem nada a ver entre si?

O movimento mais comum na superação do preconceito é quando se vivencia uma situação em que se encare de frente o preconceito. Por exemplo, um homem heterossexual, branco, de classe média, católico-mas-não-muito-praticante, faz parte da maioria das “maiorias”. Um belo dia ele faz um amigo, se aproxima desse amigo e, depois de um tempo, descobre que ele é muçulmano. Isso pode fazer com que ele veja os muçulmanos de forma diferente da visão preconceituosa que ele tinha. Pode, não garante, olhe lá.

Mas isso não impede que ele continue sendo preconceituoso com outras religiões. Dessa forma, ele terá que encarar de frente seus preconceitos e medos em relação a cada uma das religiões – sem contar os ateus, aimeudeus. Ele pode ser cara que tende a não ter preconceitos – tende a, veja bem. É como aquela conta de dividir sempre pela metade, nunca se chega a zero. Além disso, sempre haverá alguma religião com quem você nunca teve contato. Alguém conhece algum maradonista?

Voltamos ao começo do texto. As formas que a nossa sociedade encontrou de superar os preconceitos estão no varejo. Cada um deles atacado de forma específica. Ainda não conheci nada que possa, consistentemente, desconstruir a estrutura preconceituosa.

Mas a desconstrução de todo e qualquer preconceito é um exercício cotidiano, que precisa ser praticado de maneira permanente. É difícil. Muitas vezes doloroso. Mas, pelo menos para mim, parte fundamental do que dá sentido à vida.

Rodrigo Mendes de Almeida

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Marcha das Vadias em BSB: Contra o machismo sob sol e sorrisos

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Texto e imagens por Manaíra Lacerda e Rodrigo Mendes de Almeida

Foi o que se pode chamar de uma grata surpresa. Contamos facilmente algo mais que 800 pessoas para a versão brasiliense da Marcha das Vadias. Ao chegarmos ao local, nem sabíamos se seria fácil achar a manifestação, já que, nas nossas cabeças, ela estaria diminuta. Mas que nada. De longe começamos a ouvir os apitos, carregados pelo vento, já que na topografia plana do Planalto Central, o som alcança bem longe.

Uma marcha de deixar feliz quem foi participar. Tocando na ferida, como tem sido a recente onda de mobilização de “vadias”. O grande questionamento é contra o machismo que responsabiliza a vítima por um crime cometido contra ela – no caso, bota na mulher que é estuprada a culpa pelo crime.

A discussão é avançada, e a grande penetração que teve mostra que pelo menos uma parte da sociedade está avançando nesse debate. E vai impor o tema como pauta. Uma das boas surpresas foi ver homens abraçando o manifesto que aconteceu da forma mais pacífica possível, ou seja, sem nenhuma violência. Tanta tranqüilidade que pôde até ser chamada do que muitos conhecem como “programa de família”. Crianças e até cachorros estavam no meio da multidão, divertidos com o sábado diferente.

Uma tropa da polícia militar acompanhou todo o percurso, que começou perto da rodoviária de Brasília e foi até a Torre de TV debaixo de um sol escaldante. Para quem não conhece a capital brasileira, a distância é algo em torno de 3 km. Lembrando: sob o sol e a seca desta terra vermelha. Mesmo com as intempéries, a manifestação fez surgir muitos sorrisos de gente satisfeita por estar fazendo algo que, talvez, possa mudar os rumos de uma sociedade machista.

SlutWalk SP: um grito diversificado contra o machismo

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Por Natalia Mendes
(fotos: Natalia Mendes/Thiago Domenici) 

Aconteceu ontem, 4 de junho, a primeira Marcha das Vadias em São Paulo (a primeira versão brasileira da SlutWalk), com cerca de 300 participantes – pode parecer pouca gente, mas foi bonita e forte.

Cartazes com frases como: “Respeito é sexy, machismo brocha” e “Sou mulher, não sex toy” eram carregados entre a cantoria e a batucada. Muita gente fotografando, filmando, registrando. Por onde passava a marcha, era possível notar olhares curiosos de pedestres, comerciantes e moradores da região.

Jovens, velh@s, homens, mulheres. Homem vestido de mulher, mulher com adesivo “periguete”, mulheres com roupas “provocantes”, mulheres com roupas mais “discretas” e protegidas do frio, ou até mesmo quase sem roupa andavam junt@s.

Eram manifestantes com perfis diferentes e que, mesmo se tratando de um assunto tão sério, se mantiveram sorridentes e animad@s. Defendiam em alto e bom som o direito de se vestirem como quiserem e convidando a “ir pra rua contra o machismo”.

A Marcha, que tinha como principal objetivo questionar a ideia de que vítimas de violência sexual tem culpa por serem violentadas, começou na av. Paulista e desceu a rua Augusta até a porta do clube de comédia dos CQCs Rafinha Bastos e Danilo Gentili.

“Machismo mata, estupro não é piada”

O destino foi escolhido por causa de uma “piada” contada por Rafinha Bastos, durante uma de suas apresentações de stand up, na qual afirma que estupro de mulher feia “é uma oportunidade” e que o estuprador “não merece cadeia, merece um abraço”. Segundo o amigo e sócio, Danilo Gentili, a piada é contada há anos, mas só ficou mais conhecida depois de uma matéria com o perfil do apresentador.

“A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não mercadoria”, “Preste atenção, o corpo é meu, a minha roupa não é problema seu”, cantavam @s manifestantes, que, ao chegarem na porta do Comedians, emendaram “Me processa, Tas”, em referência à ameaça de processo que o apresentador Marcelo Tas fez a blogueira feminista Lola.

Um dos policiais que fazia a escolta ficou curioso como os comentários e cartazes que criticavam Rafinha Bastos e perguntou “qual deles é o Rafinha”. Depois quis saber qual tinha sido a piada. Quando contei, fez uma cara de indignação e afirmou com firmeza “Vocês têm razão”.

Já começaram a ser organizadas mais Marchas em outras cidades, como Brasília e Belo Horizonte.

Abaixo, vídeo feito por Thiago Domenici.

Será que sou uma vadia?

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Por Natalia

Com toda essa história da SlutWalk, surgiram muitos questionamentos. Eu gostei da ideia de cara, nem tinha passado pela minha cabeça que não era um baita movimento legal. Mas, claro, não foi assim com todo mundo.

Li textos com dúvidas importantes e outros que tiveram uma boa repercussão, mas que discordo de alguns pontos. E li por aí mulheres dizendo que não sabiam se queriam ir na marcha porque “não são vadias”.

Isso tudo me levou a uma pergunta: mas, afinal, o que é ser uma vadia? Quem determina isso?
Se uma mulher pra um número X de caras em X tempo, ok. Mas se ela pra um número Y em Y tempo, ah, é vadia, certeza! Se ela usa uma saia três dedos acima do joelho, ok, mas cinco dedos acima do joelho, imperdoável, sua promíscua!Essa ideia de vadia é muito subjetiva. Quem decide qual o limite para ser uma mulher “livre” ou uma “vagabunda”?Claro que quando alguém fala em alguma situação específica “aquela puta” entendo o que a pessoa quer dizer. Talvez não concorde, não ache “aquela mina uma puta”. Aí é que está a questão.

Imagino que tenha gente que me ache vadia por não ser mais virgem há um bom tempo sem nunca ter sido casada. Não vou sofrer com isso, por mais que adore passar uma “boa impressão”.

Vim de uma família que valoriza a mulher, que segue princípios feministas e tem atitudes feministas. Mas sempre fui ensinada a “não ser uma vadia”, a “me valorizar”, pois se usasse um determinado tipo de roupa não iriam me respeitar, se me relacionasse com determinado tipo de homem, não me levariam a sério e nunca conseguiria um parceiro/namorado “legal”.

Ainda hoje, isso faz parte de mim. Não consigo usar uma roupa um pouco mais curta, mais decotada, mais “provocante”. Me sinto uma vadia.

Mas e se eu quiser dar (porque vadia não transa, nem faz amor, só dá por aí) pra um número Y de caras? Eu vou ser uma pessoa pior por isso? Isso significa que eu não tenho o direito de dizer não prum cara? Tenho que aceitar qualquer um que queira me comer?

A marcha é pela direito de escolha. Pelo controle do seu próprio corpo. Pelo direito de ser “vadia”, de ser “santa”, de ser humano, sem violência. E essa é uma causa de mulheres e de homens.

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