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Preconceitos que não vemos

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Canso de ver gente super defensora dos Direitos Humanos, que se indigna com a desigualdade social e que combate o racismo, tendo atitudes bem preconceituosas. Às vezes sem perceber, achando que é só uma piada ou um pouco de “veneno”.

Mas reproduzirmos justamente o que mais tentamos combater é bem perigoso. Criticamos a indústria da moda e continuamos a fazer “piadas” de gente “acima do peso” (isso é bem relativo, acima de que peso? Do ideal? Não existe um peso ideal para todo o mundo), falamos de “cabelo ruim”, comentamos com desdém a roupa de alguém que não está com as cores combinando ou que” não condiz” com a sua idade/corpo/gênero.

Claro que podemos ter opiniões, impressões, preferências. Sem entrar no mérito da construção do gosto pessoal, das influências externas e internas que sofremos, é importante ter cuidado para não misturar as coisas. Eu posso não me sentir atraída por homens baixinhos, ou por mulheres altas. Isso não significa que homens baixinhos tenham que tentar crescer e mulheres altas diminuir, que valem menos, que outras pessoas não achem justamente a altura o maior charme de cada um/a.

E se eu coloco na minha página do facebook (hoje em dia os maiores reveladores de preconceito), ou no twitter , alguma brincadeirinha falando mal de baixinhos e altonas, estarei sendo preconceituosa. Se coloco uma piada sobre pessoas gordas, ou a foto de alguém com cabelo enrolado sugerindo que faça chapinha, também estarei sendo preconceituosa.

Se eu estou na mesa de um bar com uma amiga e comento que baixinhos não me atraem, estou apenas contando pra ela algo que tem importância só pra mim – e provavelmente nem é um critério “definitivo”. E se eu prefiro o meu cabelo alisado, quero perder peso, quero colocar silicone, quero ser loira, o problema é só meu. Não devo ser julgada por isso e muito menos esperar que todas as outras mulheres tenham a mesma relação com a própria aparência.

Falo tudo isso por causa da “polêmica” chata sobre a Adele, que considero apenas um monte de preconceito. Nunca vi discutirem tanto o peso de uma CANTORA – não uma atleta, ou de qualquer outrx profissional que possa ter algum prejuízo no seu trabalho por causa de peso. Sério, por que o peso de uma pessoa – que não é você, lembre-se – tanto importa? O que isso diz respeito a qualquer outra pessoa que não ela mesma?

Li uma entrevista em que ela diz estar bem satisfeita com o corpo. Pra começar, isso nem deveria ser assunto central numa entrevista com ela. Mas ok. E se ela está feliz, por que não deixá-la em paz?

Se a música dela não te agrada, ok. Mas não diminua seu trabalho por causa da aparência. Aliás, não diminua ninguém por causa da aparência. Pense se fosse com você. Poderia ser por causa do seu nariz, cabelo, dentes, sola do pé, dedinho da mão. Não importa a característica, pra algumas pessoas será um detalhe, para outras motivo de encanto e para outras fator determinante para não existir chance de envolvimento físico, no máximo. E ponto.

Outro exemplo mais recente, é o da Angelina Jolie no dia do Oscar. Todos comentaram sua magreza, como se fosse uma preocupação real com sua saúde – o que não acho que seja o caso. Mais uma vez muita gente gastando muita energia com algo que não lhe diz respeito.

É importante lembrar que ser gorda, magra, assim como alta e baixa, nem sempre depende apenas da vontade da pessoa. Existem fatores biológicos que algumas vezes são mais fortes do que a “força de vontade”. Além disso, tem gente que – pasmem – preferem ser mais gordinhas. Incrível, não?! Pessoas podem sim ser felizes com o peso delas, mesmo que VOCÊ ache que não é um corpo bonito.

Minha sugestão é gastar menos tempo e energia julgando e falando dos outros, e pensar mais por que isso seria relevante pra você, e se não está deixando de aproveitar muitas coisas boas da vida por se prender a uma estética tão efêmera.

Natalia Mendes

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Pela desconstrução de preconceitos

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Uma das formulações mais interessantes que eu vi nos últimos anos dizia que, de forma geral, as saídas que o nosso sistema atual de produção e relação social propõe para os nossos problemas são individuais, e nunca sistemáticas, globais.

Ou seja, pela lógica da nossa sociedade, é impossível haver uma solução para que ninguém mais seja miserável, para que ninguém mais passe fome. Todas as formas de superação de condições sub-humanas se dão numa perspectiva puramente individual.

É a tal da “igualdade de oportunidade”. Todos teriam (e nem isso é verdade) as mesmas oportunidades de sobreviver com decência em um mundo corroído pelas mais vis corrupções. Nem todos o farão. Sempre terá que haver alguém que passa fome, alguém que pede esmola na rua, alguém que míngua como um animal inferior, à margem. Mas essa pessoa está assim por sua culpa, pelo menos em parte, pois ele teve a “oportunidade” de superar essa situação. Mas não há espaço ao Sol para todos.

Me parece que os processos de cunho progressista, onde se verifica que a nossa sociedade avança, têm esse caráter, e alguns recentes acontecimentos mostram isso reiteradamente.

É o caso, por exemplo, da recente mobilização, que aconteceu em várias partes do mundo e é promissora, das Marchas das Vadias. Diversas cidades do mundo foram testemunhas de passeatas e discussões absolutamente saudáveis, com alguns dos fatores que compõem o que há de mais avançado em termos de discussão de gênero.

Acho, honestamente, que essa mobilização tem um potencial muito grande de promover avanços tremendos contra o machismo na sociedade. Não só pela capacidade cada vez mais evidente de mexer com as pessoas mas por tocar “no ponto”, acertar na mosca alguns dos pontos mais fundamentais do debate de gênero.

E não há aqui um debate sobre a superação do “preconceito” de forma geral. Claro que esbarro em uma discussão muito mais profunda e da qual não tenho propriedade que é “o que é preconceito”, e “quais os mecanismos sistêmicos que o compõem”, essas coisas. O que há são episódios em que se discute alguma opressão de maneira isolada. E isso não faz com que essa discussão não seja progressista. Pelo contrário, acho que é o que há de mais progressista hoje.

Mas como o debate de gênero se encaixa numa perspectiva mais global de combate às opressões? Como a Marcha da Maconha, como a vitória dos direitos dos homossexuais no Supremo Tribunal Federal, que podem ter sua união civil reconhecida, como a causa dos palestinos, que continuam sendo usados como alvo móvel na prática de tiro ao alvo de recrutas israelenses, como as mobilizações no Oriente Médio, podem ser colocadas numa mesma perspectiva? Há algo que se faça que se avance em todos esses temas ao mesmo tempo, de maneira globalizada, sistêmica?

Um dos fatores que podem ser abordados é o papel pedagógico que cada uma dessas mobilizações tem, em potencial, de ajudar as “outras” causas. Uma greve de trabalhadores pode ter um papel fundamental para quem está de fora, seja para chamar atenção para a causa, para forçar uma negociação… mas quem está dentro da mobilização, marchando ao lado de seu colega, sofre brutais transformações e revoluções internamente. Quem participa de uma mobilização contra o preconceito tende a ser muito mais aberto a rever seus preconceitos do que quem é educado a não ser mais preconceituoso pela televisão. Ambos estão avançando. Mas um deles de maneira unidimensional.

Li recentemente uma matéria que dava uma leve desqualificada em recentes manifestações, em especial na “Marcha da Liberdade”. O argumento é que a mobilização era meio “saco de gato”, com todo tipo de reivindicação, contra o machismo, contra a homofobia, a favor da legalização da maconha… Será que essas pautas são isoladas uma da outra? Não tem nada a ver entre si?

O movimento mais comum na superação do preconceito é quando se vivencia uma situação em que se encare de frente o preconceito. Por exemplo, um homem heterossexual, branco, de classe média, católico-mas-não-muito-praticante, faz parte da maioria das “maiorias”. Um belo dia ele faz um amigo, se aproxima desse amigo e, depois de um tempo, descobre que ele é muçulmano. Isso pode fazer com que ele veja os muçulmanos de forma diferente da visão preconceituosa que ele tinha. Pode, não garante, olhe lá.

Mas isso não impede que ele continue sendo preconceituoso com outras religiões. Dessa forma, ele terá que encarar de frente seus preconceitos e medos em relação a cada uma das religiões – sem contar os ateus, aimeudeus. Ele pode ser cara que tende a não ter preconceitos – tende a, veja bem. É como aquela conta de dividir sempre pela metade, nunca se chega a zero. Além disso, sempre haverá alguma religião com quem você nunca teve contato. Alguém conhece algum maradonista?

Voltamos ao começo do texto. As formas que a nossa sociedade encontrou de superar os preconceitos estão no varejo. Cada um deles atacado de forma específica. Ainda não conheci nada que possa, consistentemente, desconstruir a estrutura preconceituosa.

Mas a desconstrução de todo e qualquer preconceito é um exercício cotidiano, que precisa ser praticado de maneira permanente. É difícil. Muitas vezes doloroso. Mas, pelo menos para mim, parte fundamental do que dá sentido à vida.

Rodrigo Mendes de Almeida

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